A Arte Real de Lúcio Ferreira:
Trevas ou tretas
de Poeta Rei Filósofo
A Arte de retroduzir consiste em
extrair do predicado os atributos do sujeito. Vamos dar um exemplo do seu
emprego.
“Convoco as Tágides como Camões
Venham e apertem da gíria os cordões”
Destes dois versos eu consigo
predicar que há uma gíria na poesia que as Tágides vão trabalhar. Seja qual for
a gíria empregue, vai-se expressar de forma sublime, não fossem as Tágides
inspirando.
É muito importante que pratiquem esta
Arte durante o curso desta obra.
Desejo-vos boas leituras.
O que é uma introdução
Dos altos do enredo a apresentação
Pequena sinopse do que vai passar
Sem nos preciosos detalhes demorar
Trevas ou tretas eu vou-vos dizer
Coisas que ao leitor vão apetecer
Principal enredo é de Lúcio Ferreira
Que vivera uma vida com Marina já
inteira
Trevas ou tretas urgirá dizer-se
Porque não há lá muito a fazer-se
Desta proposta Lúcio muito explora
E subsequentemente enamora-se da
flora
Faz de escrevendo sua Arte Real
Compondo versos para recital
Sem mais demoras, desejo-te, bom
leitor
Boas leituras, serve-te então por
favor
Capítulo 0: Louco
Leitor
atenta que eu venho bradar
Sobre
assunto que não é secular
Convoco as
Tágides como Camões
Venham e
apertem da gíria os cordões
Tenho três
oposições a Plutão
Horóscopo me
disse de antemão
Urge o
sentimento expressar-se à convulsão
Não fosse
obra dedicada ao Deus Artesão
Mundos sem
fundos eu vim pra escrever
Ao ponto do
leitor enlouquecer
Lúcifer tem
lugar no Panteão
Senta-te e escuta da gíria o refrão
E para seu
particular louvor
Chamo da
rainha da noite o favor
Deva morar a
regência de meu foco
E com isto
termina-se quem invoco
Leitor, eu
venho com isto dizer
Que este
canto vos vai apetecer
Juro, eu
prometo, não sejam bebés
Ainda agora
meteram cá os pés
Tudo a seu
tempo, apresentação
Fora-vos
feita deste meu refrão
Foi do
arcano do Louco que vos falei
Siga o
arcano do Mago, que manda a Lei
Capítulo 1: Mago
Trevas ou
tretas, ela urge dizer
Lúcio
Ferreira não está a perceber
Sente que
sabe como resolver
Atira-lhe o bolo à cara por querer
Ira dos
centauros se levantou
Urge Marina,
que o tempo mirrou
Dizer a
Lúcio que esta foi última vez
Que lhe
ignorou do fazendo a conta dos três
Lúcio é
expulso de casa então
Não sabe
onde vir buscar o refrão
Bate-lhe à
crença, Marina não crê
Esbanja o
correio, Marina não lê
Sem saber o
que fazer mais porquê
Lúcio entra
em desespero, tu vê
Vira o vento
de vendaval e vai-lhe ao cu
Marina não
curte do coito o aspecto
Lúcio não
sabe mesmo o que fazer
Então por
alto começa a dizer
- Se ela
gostasse daquilo que sou
- Em vez da
prece que Artemis trovou
Passam-se
horas a dizer coisas tais
Raia o sol
mágico dos ancestrais
Lúcio já tão
distraído já não quer crer
Que ouve no
vento da princesa Guinevere
Escuta, meu
querido, ela unge a dizer
Estás em
perigo ante essa mulher
Vem ao
abrigo da esfíngica ponte
Aprende a
sabedoria da Fonte
Lúcio, exaltado do que escutou
Da porta de
Marina se ausentou
Partiu em
busca de seu amado trono
Desliza
Lúcio por perturbante sono
Capítulo 2: Sacerdotisa
Conta-se a
história de Lúcio a sonhar
Dragões
alados não estão a apartar
Cai-lhe o
Caduceu à boca dos pés
Vira magenta
a paisagem que vês
Lúcio
caminha por sobre o asfalto
Invocando
forças do Céu do alto
Esgota-se na
ostentação do manifestar
Absorve o
dia, e a noite passa a narrar
Ausente de
sua sombra ele persegue
Grito do
ventre mamário se segue
Cresce em
Herodes a ira do fogo
Jesus Cristo
veio salvar o povo
Levanta-se a
Lúcio a velha questão
Que fazer
com este poder em mão
Senta-se e
pede um desejo de compreender
Desce
Trismegisto e conta o que vamos ler
Era uma vez
então Lúcio Ferreira
De entrar no
templo dos sonhos à beira
Mas será que
veio preparado?
Onde está
ancinho ou arado?
Vais ter de
muito lavrar do saber
Se é que por
ti vai isto algo fazer
Não vás
nervoso, dá-me um aperto de mão
Vamos à
Imperatriz avançar questão
Capítulo 3: Imperatriz
Lúcio acorda
de ouvido a tremer
Vasto
horizonte de feira a crescer
Compra um
artigo em segunda mão
Sente-lhe o
toque da terceira em vão
Parte Marina
na gula da gente
Lúcio
furioso de desejo ardente
Corre a
multidão por ela sem suspeitar
Sorte da
sina se acabava de mudar
Pergunta às
cheias de gente quem viu
Depressa tão
triste e só se sentiu
Não havia
quem pudesse ajudar
Não tinham
visto a moça a marinar
Lúcio se
volta na gíria da mente
- Porque é que
ela volta assim de repente?
Perde-se em
prosa vasta de argumentação
Esquece a
poesia que os arcanos lhe trarão
Esquece o
assunto e vá, pede um café
Empregado
vai demorando até
Cobra-lhe o
pedido segunda vez
Lúcio não
espera pla conta dos três
- Deuses
protestem a injustiça atroz!
- Cobram duas
vezes meu bolo de arroz
Desce ao
império uma força que a sombra luz
Gritando
afastem-me já essa dita cruz
A póvoa geme
da víscera o espanto
Mas não
compreendem nada portanto
Lúcio
desiste da conta dos três
Cobra
empregado de primeira vez
Sai pela
estrada ausente de si
Solta no
mendigo a seu frenesi
Fúria de
Lúcio não há hoje quem derrote
Arcano
próximo cavalga a largo trote
Capítulo 4: Imperador
Senta-se e
começa assim a escrever
Marina esta
carta vais ter que ler
Eu não
percebo da tua valsa
Dito sapato
Lúcio não calça
Vou-te pedir
pela primeira vez
Ajuda-me a
fazer conta dos três
Assinado
Lúcio Ferreira com amor
Não te
demores a responder por favor
Bate-lhe à
porta pra carta entregar
Entreaberta
vai no jardim dar
Passa a
revista à cozinha o rapaz
Não há sinal
de estar cá Satanás
Na sala de
estar a TV ligou
Quarto de
banho autoclismo puxou
No corredor
parece estar tudo em ordem
No quarto de
Marina deita-se outro homem
Perde estribeiras
e mata o presente
Busca
furioso pela residente
Marina está
a tomar banho de chá
Não dá conta
de se morrer por cá
Ódio cega a
vista do trovador
Questiona
Marina esfíngico em dor
- Porque me
trais, maldita, macabra, mulher
Ela não sabe
qual das respostas escolher
Lúcio pega
no revólver então
- Diz de
justiça o maldito refrão!
Marina quer
ao desejo ceder
Insiste que
não lhe está a apetecer
Lúcio
sucumbe à loucura de Caim
Dispara
sobre a cabeça refém
Marina cai
no chão torta de reverso
Lúcio
procura na boca dela o verso
Mas só lhe
encontra o cadáver mortal
Morde-lhe a
angústia como se animal
Pega na
pistola terceira vez
Esquece de
fazer a conta dos três
Tomba por
sobre Marina o semblante
Lúcio,
porém, ali vivificante
Solta-se a
corrente da corpórea prisão
A morte de
Lúcio não foi de todo em vão
Capítulo 5: Hierofante
O meu
problema, eu vou-vos dizer
É ao registo
celeste aceder
Cantou-se já
vário díspar refrão
Sem porém
resolver esta questão
Portanto
muna-se o leitor de fé
Que a salva
de palmas admito em pé
Passemos ao
assunto que nos trouxe cá
Lúcio viaja
o Akáshico ao Deus dará
Conhece o
Inferno, o antro da dor
Por lá
passou vasto vário temor
Achou amigo
digno de palácio
Célebre
artista, o místico Horácio
Juntos
atravessaram as trevas
Deram conta
de todos os devas
Num lance de
genialidade Horácio diz
E se
pintássemos tudo isto a pau de giz?
Lúcio
convulsa de satisfação
Tinha achado
propósito ao refrão
Chamaram de
imediato Satanás
Que em
governar as tormentas é um ás
Satã lhes
revê proposta clamor
Que aos
deuses da sombra lance favor
E que se
ecoe por todo o firmamento
Satanás
paga-lhes um centavo cento
Horácio
parte em busca da musa
Lúcio à
espera que a vaca tussa
Não sabe o
que começar a escrever
Sobre a
tortura lhe está a apetecer
Toma suas
notas num caderno à parte
Monta o
cavalete para obra de arte
Lembra da
primeira noite em que a musa amou
Senta-se à
sombra e o verso assim professou
Capítulo 6: Enamorados
Era uma vez
o casal dos rifões
Limpavam
boca com guardanapões
Guardavam na
dispensa o candelabro
Conter da
mesma da porta vos abro
Manjericão
de tulipa pra os pés
Urtiga e
silva pra secar a tez
Bastão de
Hermes Trismegisto, o Caduceu
Lição dos
arcanos maiores do povo hebreu
De maneira
que o casal dos rifões
Tinham para
gastar muitos tostões
Convidaram
Lúcio para o jantar
Lúcio mal
sabe no que está a entrar
Juntam-lhe
as pontas das patas num v
Trata o
casal entre si por você
Levam Lúcio
a vislumbrar cósmico ovo
Lúcio se vê
Cristo a salvar de vez povo
Então mas
tem de muito trabalhar
Não só
desistir da vida e matar
É conceder
sem o desejo em ver
A quem se dá
ouro que o possa ser
Cristo
implica a total redenção
Foco no
esfíngico olhar da missão
Invariável
na decisão que tomou
Só dessa
forma do chão povo levantou
Muitas
visões deste género ele tem
De umas pra
as outras, todas faz refém
Muita
pressão ele portanto sentiu
E da missão
celeste se sumiu
O casal dos
rifões puxam-lhe a mão
- Desta não
escapas à circuncisão
Lúcio
temendo por seu corpo etérico
Sai a correr
de casa deles histérico
Capítulo 7: Carro
Lúcio foge
do casal dos rifões
Vai às putas
por duzentos tostões
Lambe a rata
a Maria Madalena
Sonhava com
isso desde pequena
Quando
esqueceu do coração levar
Em que Madalena
ousou cultivar
Chama de
amor como não vista pelo deus
Lúcio
partiu-se de em dois de pedaços seus
Um ele achou
que era reles actor
O outro era
um mágico artista doutor
Lúcio não
sabe onde identificar
A sua
essência que estava a faltar
Quis escolher
uma, a outra entrepôs
Quis a
delícia, mas bolo de arroz
E Lúcio não
sabia disto o que fazer
Seu coração
com Madalena a transparecer
Portanto ele
vingou a treva do ventre
Enfrentou a
Madalena de frente
- Olha,
desculpa, dá-me o coração
- Preciso dele
pra cantar ao serão
A puta deita
no colchão atroz
Boca boceja,
escárnio não vem sós
Lúcio
revolta-se da ousadia da coisa
Dedica-lhe
então versos de partir a loiça
Maria
finalmente percebeu
Que o
coração não mais lhe pertenceu
Segue de
viagem Lúcio portanto
Não venha o
leitor com tão vário espanto
Cego da
vista Lúcio descortez
Prega-lhe
estalo na cara uma vez
Manda-lhe a
conta da pregação de Cristo
A puta leva
os versos ao arcebispo
Capítulo 8: Ajustamento
Lúcio ao
casal dos rifões voltou
Mais
esquecido do que se passou
Panquecas
sorvem-se à mesa dos três
Lúcio lhes
conta assim, era uma vez
Uma revolta
de sacro pastor
Que não
temia de Deus o fervor
Esse pastor
atreveu-se a fazer-nos mal
Foi-lhe
retirado todo seu capital
Sacro pastor
não sabe o que fazer
Quer-lhes
pregar mas povo não quer crer
Um se
revolta e diz pra toda a gente
- Vós não lhe
vedes a chama latente?
Leva o
clamor o vento à procissão
Triste
clamor transforma-se em rifão
A vida
cresce por todo o pasto de assim
Era uma vez
história contada por mim
Casal dos
rifões sorri de tridente
Lúcio que
lhes trouxe chama presente
Transformaram
na sombra de Satã
Lúcio não
sabe onde está sua mamã
Corre
depressa, mas o chão ardeu
Esconde a
premissa, mas canto se ergueu
O casal dos
rifões quer saber de Cristo
Quanto
faltou para libertar Mephisto
Lúcio sabe
de tudo o que dizer
Senta-se à
mesa, começa a escrever
Caro casal,
eu de vós me despeço
Estima por
minha decisão não peço
Sai de
repente sem dizer adeus
Caem-lhe em
sobressalto colhões seus
E o casal lá
teve mais tarde de explicar
Que do
presente só se conta o querer-se-o dar
Capítulo 9: Eremita
Lúcio
conheceu a Paulo Ermitão
Lúcio
desventrou-lhe em prosa a questão
Eremita
entende que sim, percebeu
Mas tinha de
aprender por erro seu
Lúcio não
percebe o lado da coisa
Pra si verso
tem de partir a loiça
Ruge pra
dentro irritado com o Ermitão
Fogo latente
se dispara em furacão
Entanto
tentando Lúcio escrever
Uma sande
começa a apetecer
Sente-se
apelo de verso riscar
Mas por
motivo algum vou continuar
Monta na
carne fresca o duplo pão
Devora a
sande sem muita questão
Todo
satisfeito volta pra seu escrever
Encontra
coisas que nem português quer ler
Lúcio vai
falar com Paulo Ermitão
Mostra da
bodega o verso em questão
Paulo se
farta de rir sacra fonte
- Tinhas
pedalada pra até bisonte!
Lúcio não
sabe bem o que dizer
Logo começou
a Paulo a escrever
Mas Paulo
lhe diz, quero ler esse também
Lúcio faz
esforço pra lhe chular vintém
Vou olhar
para meu interior
- Salva-me
Lúcio, peço-te, favor
Ouço da
prosa musa me gritar
Ou estou
tolinho ou estou a sonhar
Musa devora
a última serpente
Brada um
bramido até bem deprimente
Eu não
resisto, eu vou ter de a resgatar
Olha, Eremita, o que tu me fizeste obrar
Capítulo 10: Fortuna
Lúcio
procura-a em todas as partes
Busca sua
musa, não canses, não fartes
Já
prevaricando a conta dos três
Achou que ela o encontraria em vez
Mede a
proposta contra o coração
Hoje
apetece-me sacar rifão
Aposta tudo
na Roda da Fortuna
Cai-lhe da
máquina esta próxima tuna
Apaixonado
por Juliana
Lúcio não
viu a hora da manhã
Bateu-lhe à
porta que trancou de vez
Desvia de um
só mas chovem-lhe três
Lúcio não
sabe mais o que fazer
Ela é
agressiva, não lhe quer crer
Respira
fundo e tenta mais uma vez
Desvia de um
só mas chovem-lhe de outros três
Lúcio não
quer viver mais no rodeio
Mas Juliana
é seu maior anseio
Parte-lhe a
porta e chama-a puta
Tira-lhe a
roupa e aperta a fruta
Sente-lhe a
banha no centro da mão
Unge a nojenta
com água e sabão
Larga-lhe um
peido e põe-se mas é a andar
E nunca mais
de Juliana ousarei contar
Capítulo 11: Luxúria
Era uma vez
a musa Beatriz
Gostava de
escrever com pau de giz
Pintar de
mármore a gíria da pele
Brincar aos
magos que enxotam de fel
Lúcio foi
tiro e queda de amor
Chegou-lhe à
beira e fez breve louvor
Beatriz
espanta de tão cortez agressor
Chama a
polícia, os bombeiros, de alguém favor
Lúcio não
fez muito bem entender
Mas teu
coração eu vou merecer
Tu não se
abriga na sombra do prédio
Tu não me
vai dar não outro remédio
Chega aqui fora,
quero conversar
Acho que nós
temos tanto pra dar
Se tu
quiseres fazer isto junto de mim
É só
rimarmos, mesmo tão fácil assim
Beatriz
espreita pelo corredor
Já não ouve
a prece do predador
Volta pra a
cama e sonha com o rapaz
Dá dois
estalos na cara de um zás
Cansa de não
poder adormecer
Sem a seus
sonhos Lúcio aparecer
Prega o
chavalo na cruz pra se livrar dele
Surge então
resposta à profecia daquele
Lúcio cruzou
de Beatriz olhar
Quando os
carros não estavam a passar
Garota faz
passo brando veloz
Só quer que
o predador a deixe a sós
Lúcio diz
ainda adeus a Beatriz
Polícia não
o apanhou por um triz
Finda assim
prosa de merda, me desculpem
Meus traumas
passados e infortúnios culpem
Capítulo 12: Dependurado
Lúcio
Ferreira queria falar
Mas a sua
mãe não lhe estava a deixar
Mordeu
nabiça com muito desprezo
Vai pra o
caralho, pois é, assim rezo
Nisto a
chuva de estrelas pousou
E um
vendaval Cérbero levantou
Urge saber
porque profanas linguagem
Deus não te
fez à Sua semelhança e imagem?
Lúcio
conhece então o deus Plutão
Lúcio delira
no êxtase o cão
Corre ele
raivoso por entre as maçãs
Assusta
cento de demos e Pãs
O deus não
percebe o que está a passar
Cérbero não
costuma delirar
Descobre
Lúcio ter em mãos qualquer poder
Que pode
fazer os mundos estremecer
Lá se contém
de lhe apertar a mão
Guarda o
segredo com ostentação
Plutão lhe
dá um estaladão na face
Que esta
infâmia despercebida passe!
Lúcio se
verga ao deus agressor
Sente
convulso seu interior
Enlouquece
do ruído de Satanás
Prega-lhe um
soco em vez do guloso cabaz
Plutão
desaparece do recreio
Lúcio ter
sido bruto tem receio
Envia prece
a pedir-lhe perdão
Ouve de
alegre o severo sermão
Busquem na
gíria o verso da proposta
Saia você
daqui mais bem-disposta
Quereis
mais, fiquem para a próxima exposição
E me perdoem
meu surto de ostentação
Capítulo 13: Morte
Quando a avó
de Lúcio desfaleceu
Um gole de
água benta ele bebeu
E descobriu
com ar mui triunfante
Água benta
usa também protestante
Numa coisa
ao menos igreja uniu
Que o resto
do documento sumiu
Querem
reter-nos numa única profissão
Quero dizer
que isto é só arte de antemão
Mundo que
oprime o prevaricador
Mundo que
incita arder chama menor
É este o
mundo em que vivemos nós
Não me vão
deixar as preces a sós
E o seu
rebento, porém, é astuto
Até se
vacina contra tal surto
É das
promessas que se alimenta Satã
Povo não
temam que mordem de vez maçã
Mundo que
oprime os povos sem mais não
Mundo que
incita a guerra sem razão
É esse o
medo em que enfiados estão
Todos os
crentes do rito pagão
Vem a
propósito, eu sei, pois, eu sei
Não fosse eu
próprio Jesus Cristo Rei
Quando a
minha avó morreu eu muito aprendi
Lúcio
decifrando a gíria num frenesi
Lúcio se
volta pra as trovas da morte
Nunca se
cantara assim de tal sorte
Mundos me
mordam, eu estou acordado
Nunca
imaginei eu estar em tal estado
O que
sobrevém eu estou para ver
Leitor
atente no que acontecer
Vá, tenho de
ir, adeusinho aos que aqui estão
Façam-me o favor de aprender este rifão
Capítulo 14: Arte
Lúcio
conhece a senhora da prece
Que de sua
sabedoria apetece
Leva-lhe
Lúcio um monte de questões
Senhora da
prece aperta os cordões
Qual a
demora que Cristo tem dar
Para que os
povos o possam escutar?
Senhora da
prece inventa qualquer pronome
E diz-lhe
que esconde assim de Deus Pai o nome
Qual a
certeza de ser Cristo Rei
Que pode
modificar própria lei?
Queira a
senhora da prece reter
Trago de
lábia antes de responder
Eis que a
senhora da prece tem dó
De seu
menino que sente tão só
E diz-lhe
assim, a redoma é o atributo
A
fraternidade universal o fruto
Nisto a
senhora da prece interrompe
Cai de
joelhos, ai Deus meu que tombe
Senhora da
prece se levantou
Grita bem
alto, e o reino bradou!
Brilha aura
de Lúcio tom magenta
Escreve-lhe
um poema na sebenta
A senhora da
prece tem de se ir embora
Deixa o
bilhete na carteira sem demora
Do que se
ouve por aí a dizer
É que a
senhora não quis responder
Guardou pra
si da semente o segredo
Deixou
envolto Lúcio em negredo
E que é que
falta? Ah, só terminar
Lúcio não
ouviu mais dela falar
Estudou-se
vário, inconsciente do caso
Da senhora
da prece não mais preciso
Capítulo 15: Diabo
O pai de
Lúcio ousou protestar
Sobre o
engenho que ele tinha pra dar
Lúcio
fechou-se logo em copas três
Nunca mais
se ouviu um era uma vez
Lúcio na
escola começa a brincar
Esconde o
sorriso que não quer ficar
Sofre de afronta
mas não retalia mais
Inteligência
migra pra a dos animais
Lúcio
rejeitou a prece de Cristo
Foi nessa
altura que apareceu Mephisto
Sede de
sangue de quem quer que foi
Que o
transformou de borrego no boi
Lúcio aponta
logo pra seu pai
Boca de Lúcifer
ampla lhe cai
Mete o pai
junto dos deveres da redenção
Lúcio mais
cuidadoso de onde mexe a mão
Lúcio foi
dizer olá a seu pai
Que dos
infernos gritava num ai
Pediu
desculpa pelo tempo todo
Em que o
engenho virava um engodo
Abre-se o
Céu para o pai de Lúcio
Percebendo o
rosto de Confúcio
Brada bem
alto, tão grato que estou da luz
Voltou a
confiar em si próprio então Jesus
Capítulo 16: Torre
Lúcio se
apaixona pelo seu choro
Cantava
então a menina do coro
Figas à
espreita, ele urge saber
Se ela gosta
ou não gosta dele, quer crer
Coro
espevita de alegre canção
Menina cora
cantando o refrão
Lúcio não
resiste, pede-lhe em namoro
Nunca
desiste da menina do coro
Mas a menina
do coro tem já
Planos pra
namorar moço de lá
Lúcio contém
de asneira não dizer
Voz se retém
de provérbio lazer
Desde então
não se ouve Lúcio cantar
Lírios do
campo já vão a mirrar
Lúcio não
pede seiscenta vez por favor
Leva à
menina um texto em seu louvor
Que eras a
sombra, o sol já nasceu
Que eras a
pompa, o puto já cresceu
Serve-te o disco
ou preferes convexo?
Não me
venhas dizer que fodi sexo
Tu és mais
jovem mas tens que saber
Amar não se
escolhe nem é por querer
Firmo-te a
piça na puta do diapasão
Menina do
coro, aprende-me este rifão
Desde então
nunca mais se ouviu dizer
Que Lúcio
tardava a menina ter
Come-se de
mangas por sobre a mesa
Estamos em
Portugal, sim, com certeza
Que isto
sustente o meu predicamento
Só Deus
merece o devir julgamento
Deixo-vos a
meditar sobre essa questão
Pista,
recitei-vos da Torre este rifão
Capítulo 17: Estrela
Lúcio a
Sócrates urge escrever
Não podes
advogar nada saber
Que como é
óbvio saberias tal
É uma
contradição tal com tal
Espero
resposta tão breve que Deus
Podemos
partilhar os Caduceus
O meu é o
bastão víscero de Cármeda
Bradar o
nome da musa a alargar me dá
Sócrates me
perguntou dessa vez
Qual é o
nome da musa, Hermes Três?
Cármeda,
repeti de coração
Sócrates
vira tolo da canção
Nunca tinha
ouvido nela falar
Lúcio hesita
o espetáculo a dar
Sócrates
pede-lhe boa satisfação
Pra não
descrer da narrativa o Artesão
Lúcio
percorre então sua consciência
Toma o
sentido de haver-lhe existência
Desde o
ritual que Ísis não praticou
Verte e
desventra o sangue que pecou
Cármeda
então é Ísis, dizes tu?
Lúcio
peleja, sacode o tutu
Cármeda é
fruto da vossa circuncisão
Cármeda,
abrupta hipóstase pra a questão
Sócrates ri
de alegre sucesso
Tinha
aprendido seu primeiro verso
Logo
largou-se da consciência atroz
Deu
solavanco ao montar albatroz
Lúcio
despediu-se dele com amor
Todo
orgulhoso de alegre fervor
Sócrates, a
estrela de humana ascensão
Lúcio, a
fera que rebenta co’ refrão
Capítulo 18: Lua
Cármeda, a
rainha da noite, apareceu
Lúcio não
sabe bem que é que lhe deu
Mas
vislumbrava a Deusa arcana ali
De dizer
verdade eu não me esqueci
Cármeda move
o dedo mindinho
Na mente de
Lúcio nasce um ninho
Cobras,
serpentes desventram pelos ovos
Lúcio lá que
preocupado pelos povos
Trevas ou
tretas, ela urge dizer
Este rifão
Lúcio, vais aprender
Diz-se do
ventre que verte verniz
Que com a
dor da condessa condiz
E se
voltarem isto a perguntar
Só tens de
urgir de por fim me chamar
Que eu lhes
desventro a devassa da depressão
Narcos me
nutram, não nasci néscia eu não
Trevas ou
tretas, ela urge dizer
Vamos treinar
para se acontecer
Levantas
lente da lei lisonja
Levas alento
à leprosa musa
Nada mais
temos aqui a dizer
Urge o tempo
que me vás responder
Vá, estou à
espera, não demores tanto assim
Tu e a mania
de ficares a ouvir de mim
Cármeda
grita na sombra da Sé
Depois da
Terra levanta seu pé
Beija de
Lúcio face vermelha
Enche de
orgulho a vegetal sertã
Lúcio
aprende o que se urge dizer
Certo
problema virá a resolver
Demais me
parto, adeus meu nobre povo
Não se esqueçam de abrir mente ao cósmico ovo
Capítulo: 19 Sol
Uma é
projecção e outra é verdade
Não andam
juntas de livre vontade
Uma se
veste, outra se revestiu
Uma
experimenta-se e a outra sumiu
Uma
projecção não é uma verdade
Metam na
cabeça da sociedade
Isto que vos
trago é verdade, sem depor
Sentem-se e
escutem do místico, por favor
Chega-se o
Zé à frente pra dizer
Não estou é
nada disto a perceber
Cabe então a
Lúcio de se explicar
Começa Lúcio
sensato a falar
O que vos
digo é a mais pura verdade
Deixe não
livros, vos mata a saudade
Enche o
delírio ou queres mais verso à prosa?
Zé num
martírio por entender se esforça
Lúcio lhe
diz então subsequentemente
Leva o
martírio à cova da gente
Traz-te
vazio de volta da Sé
Medita
profundamente em teu pé
Zé não
delira não, vicia até
Lança as
vestes na cova da ralé
Escuta de
Lúcio um último verso seu
Brada-lhe da
húbris fantástico o hebreu
E como tal
tu tens de creditar
Que é dar
crédito ao que se está a falar
Depois à
noite no sonho acontece
Começas tu
mesmo a bradar a prece
Ficamos por
aqui nesta lição
Queiram
fechar da porta o corrimão
E não se
escusem de decorar o verso
Senão eu juro-vos, levam de reverso
Capítulo 20: Aeon
Lúcio
aprende as cartas do Tarot
Do seu
antigo falecido avô
Davam acesso
à centelha terrestre
Resolvia-se
o que se propusesse
Lúcio não
deu tempo pra respirar
Em delírio
começa a praticar
Arcanos
revelam segredos de assustar
Lúcio por
força vai ter de se preparar
Compra o
baralho de Marselha então
Procura o
segredo da carta em mão
Urge a
demoníaca vil serpente
Purgar da
víscera a sombra latente
Cármeda
assiste ao enredo a correr
Lúcifer
espera o que vai aparecer
Lúcio se
presta ao serviço da danação
Ambos
aplaudem e saltam do tecto ao chão
Lúcio
penetra o Aeon afinal
Mudar
depressa canta o recital
Que algo
levanta da sombra do ser
Esse algo é
Cristo, bem podes tu crer
Lúcio
nervoso não conhece a si
Faz
multiplicação do número pi
Gira e
bonita é a musa, faço menção
Branca,
bendita, negra maldita canção
Lúcio não
sabe se vai preparado
Não tem
forma de estar em melhor estado
Trevas ou
tretas, ela urge dizer
Lúcio não
sabe o que lhe responder
Cruza de
Marina olhar no Inferno
Veste-lhe a
blusa da sombra de Inverno
Falam entre
si como aqui se professou
Ela
primeiro, depois vez outro passou
Capítulo 21: Universo
Trevas ou
tretas eu urjo dizer
Que é porque
não me estás a responder
Lanças o
lince ao linguado latente
Devas
devoram desejo docente
Mas eu
gostava de te ouvir dizer
Algo que ao
povo não tenhas escrever
Ou é preciso
eu ir para o povo também
Pra deter
assim tua palavra refém?
Não te
aborreças de me responder
O que sucede
é só sombra do ser
Sabre do
cinto se assente a sacar
Quando a
gulosa de sem veste andar
Não te
martirizes tanto, Lúcio
Bradas como
nem sequer Confúcio
Esperas de
mim que não te reconheça? Então?
Já és
crescido pra saberes de antemão
Urjo das
trevas a trova tecer
Preparar
prato pra próprio prazer
Tu já devias
conhecer a peça
Que meu
fascínio é comer da travessa
Cuida-te na
próxima encarnação
Cuida de ti
e do teu giro refrão
Amo-te,
ouviste? Tão ardente como ontem
Lúcio,
abraça-me uma última vez, homem
Trevas ou
tretas urgia dizer
Musa Marina,
quer-me querer parecer
Desvendar
divas a diesel de dor
Cultivar
ceitas cremando o cantor
Enxotar
cheias de chato xamã
Praticar
pesos da prosa persa
Mitigar
mundos mantendo o mantra menor
Castigar
crenças cortando o clarão da cor
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